A linha tênue entre bolha e cárcere no Australian Open

O Australian Open é o primeiro dos quatro eventos mais importantes do tênis: os Grand Slams. Devido à pandemia, o futuro da competição era incerto, mas ninguém lutou tanto para ela acontecer quanto Craig Tiley, o diretor executivo do tênis australiano. Tiley passou meses negociando com o governo e com os tenistas de todo o mundo para que as portas do Australian Open se abrissem, e depois de muita insistência, ele conseguiu o que queria — entretenimento garantido para todo o mês de fevereiro, contanto que os jogadores envolvidos ficassem duas semanas de quarentena antes de jogar. Era um acordo justo e flexível para que todos treinassem, mas a complacência não passou do papel, pois com poucos dias restantes para o campeonato, Melbourne, a cidade que sedia o torneio, virou de cabeça para baixo.

Três vôos fretados que pousaram em Melbourne entre sexta-feira (15) e domingo (17) registraram casos de coronavírus — um deles foi de Sylvain Bruneau, treinador de Bianca Andreescu, campeã do US Open de 2019 — e antes que alguém pudesse se manifestar, o chefe de estado de Victoria ordenou que todos dos aviões fretados se confinassem por 14 dias em seus quartos de hotel, abrangendo cerca de 72 tenistas que vieram treinar para o torneio, mesmo que nenhum tivesse testado positivo. Eles não conseguiram a quarentena flexibilizada prometida, e isso só enfraqueceu ainda mais a relação dos jogadores com a organização e, principalmente, com Craig Tiley, que desmentiu todas as apelações contra ele.

Esse “cárcere privado” trouxe uma desvantagem sem igual para o campeonato: uma bolha terá mais de duas semanas de preparo, e a outra terá menos de uma. Isso porque enquanto os jogadores de Melbourne são ameaçados de multa caso tentem até mesmo abrir a porta de seus quartos, aqueles que foram parar na cidade vizinha, Adelaide, seguem treinando todos os dias com todo o apoio possível. Dentre as estrelas em Adelaide, estão Rafael Nadal, Novak Djokovic, Serena Williams e Naomi Osaka, todos favoritos ao título.

Australian Open reports 4 more COVID-19 cases | Daily Sabah

Tênis x Austrália

O número um do mundo Djokovic, um dos diversos tenistas fora de Melbourne que se sensibilizou com a situação, escreveu uma carta para Craig Tiley com mudanças que poderiam aliviar a quarentena da cidade ao lado, mas isso só irritou ainda mais o governo de Victoria.

”Não há tratamento especial aqui, porque o vírus não trata você de maneira especial, então nós também não”, respondeu David Andrews, premier de Victoria.

A demanda de Djokovic foi negada e hostilizada por toda a Austrália. Cidadãos de Melbourne reclamaram sobre os casos de coronavírus e como o Australian Open os colocavam em risco, e funcionários do governo se opuseram à decisão de priorizar o tênis ao invés dos nativos.

No fim das contas, tanto os cidadãos de Melbourne quanto os confinados têm seus direitos, mas é como o tenista alemão Dustin Brown disse:

”Se fosse só por questões de segurança dos australianos, o Australian Open seria cancelado. Tudo isto é por causa do dinheiro.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: