Libertadores 2020: O título da minha vida

Um recorte da história do Palmeiras em contraste com a história da minha família.

Apesar do título acima, o foco deste texto vai bem além da Libertadores de 2020. O milagroso gol de um subestimado Breno Lopes, no minuto 99 do jogo, foi o ápice da minha felicidade como palmeirense, mas está longe de ser o resumo desta história. Pois bem, a história que venho trazer começa lá atrás — mais precisamente nos anos 70 — quando o Palmeiras tinha uma verdadeira Academia de Futebol, que fez meu avô se apaixonar pelo alviverde imponente.

Antes de mais nada, convido todos os amigos palestrinos e não-palestrinos a conhecerem não apenas a trajetória da Sociedade Esportiva Palmeiras, como também a da minha família apaixonada por este clube. Sendo assim, vamos aos tempos da discoteca, com o meu avô — o Seu Zequinha.

Seu Zequinha: A Academia de Futebol

Foto: Reprodução da Internet

Nascido no interior do Ceará, meu avô, assim como muitos nordestinos, veio até São Paulo em busca de uma vida de novas oportunidades. Porém, ele não esperava que também encontraria uma nova paixão.

Paralelamente, o Palmeiras era soberano no futebol nacional. Além das conquistas nacionais e estaduais — é importante lembrar o peso dos estaduais à época — o futebol jogado pelo Palestra era referência de qualidade técnica no país.

Não à toa, o esquadrão que teve nomes como Ademir da Guia, Luís Pereira, Leivinha, Cezar Maluco e Leão era conhecido como “A Segunda Academia” — sucedendo a também vitoriosa Primeira Academia dos anos 60.

Dentro deste contexto, retornamos ao meu avô Zequinha. Quando chegou à “Terra da Garoa”, um amigo o convidou para assistir a uma partida de futebol. Entretanto, não era uma partida qualquer. Tratava-se de um Palmeiras x Corinthians, o grande derby da capital paulista.

Sem nenhuma preferência, antes do início da partida, Seu Zequinha já deixou claro: “Vou torcer para quem vencer esse jogo”. Felizmente, os deuses do futebol foram extremamente generosos comigo. O Palmeiras ganhou a partida e um novo torcedor.

Edson: Da fila à Glória Eterna

Foto: Reprodução da Internet

No ano de 1976, Zequinha ganhou o seu primeiro filho, o meu pai Edson — que curiosamente foi batizado com o nome do Pelé, o maior rival da Academia. No mesmo ano, o Palmeiras conquistou o Paulistão de 76, bem pé-quente o meu pai, não é mesmo? Acontece que os anos seguintes não foram nada fáceis para os palmeirenses.

Após a aposentadoria de Ademir da Guia, o Palmeiras sofreu alguns dos piores anos de sua história: a fila de títulos. Acostumados com as conquistas, os torcedores mais experientes amargaram anos totalmente atípicos. Meu pai, contudo, não tinha qualquer lembrança dos anos dourados, e passou sua infância e adolescência sem ver um único título de seu time do coração.

Porém, o fim da seca veio de uma maneira perfeita para qualquer palmeirense. O dia 12 de junho de 1993 não foi apenas um dia dos namorados. O dia 12 de junho de 1993 foi a libertação de uma torcida que carecia de títulos. Para falar a verdade, foi até mais do que isso. A vitória contra o Corinthians por 4 a 0 foi o primeiro título da vida do meu pai — o homem que fez eu me apaixonar pelo Palmeiras.

Posteriormente, o pênalti cobrado por Evair na final de 93 abriria as portas para uma fase vitoriosa. Além dos três Campeonatos Paulistas (1993-94 e 1996), dois Campeonatos Brasileiros (1993-94), uma Copa do Brasil (1998) e uma Mercosul (1998), o maior título da gloriosa Era Parmalat — patrocinadora que investia e gerenciava o clube — aconteceria em 1999, na Taça Libertadores.

1999: A Conquista da América

O caminho para a Glória Eterna, no entanto, não foi nada fácil. O time treinado por Felipão teve que enfrentar Corinthians (campeão brasileiro) logo na fase de grupos. Nas oitavas de final, outra pedreira: Vasco da Gama, o campeão da Libertadores do ano anterior. Nas quartas, novamente o arquirrival Corinthians.

Todavia, a estrela de um até então goleiro reserva brilhou. Marcos, o substituto de Velloso, fechou o gol, operando defesas milagrosas e sendo decisivo nas penalidades. Contra o River Plate, nas semis, o goleiro brilhou novamente em pleno Monumental de Núñez, e o craque Alex brilhou no Parque Antártica.

Na final, contra o Deportivo Cali, da Colômbia, o coração do meu pai já não aguentava tantas emoções. Após 180 minutos de reviravoltas — derrota por 1 a 0 na ida e 2 a 1 na volta — o título seria decidido nas penalidades máximas.

Vendo as circunstâncias desse jogo, devo dizer que não o julgo por querer assistir a disputa de pênaltis. No entanto, ele foi dar uma espiadinha na última cobrança desperdiçada por Zapata, e pode comemorar a Glória Eterna ao lado do Seu Zequinha.

Marcos: Do Rebaixamento à Segunda Glória Eterna

Foto: Divulgação/Gazeta

Chegamos a última parte do texto, e agora é o momento de falar um pouquinho de mim. Pelo meu nome, talvez você tenha percebido uma semelhança com o herói de 1999. E sim, não é apenas uma coincidência. Meu pai me batizou com o mesmo nome do São Marcos, que para mim, é o maior jogador da história do Palmeiras.

A coincidência, por outro lado, está no azar que eu e meu pai tivemos nos primeiros anos de Palmeiras. Eu nasci em 2002, mesmo ano do pentacampeonato mundial da seleção brasileira. Nesse mesmo ano, após o fim da parceria com a Parmalat, a Sociedade Esportiva Palmeiras teve o seu primeiro rebaixamento.

O azar continuou ao longo dos anos. No meu primeiro ano “lúcido” acompanhando futebol, vi o decepcionante Campeonato Brasileiro de 2009 – ano em que o Palmeiras entregou a liderança e acabou ficando sem vaga para a Libertadores. Quando a situação parecia mudar em 2012, com o improvável título da Copa do Brasil, um novo rebaixamento ocorreu.

Meu pai bem que tentou me avisar antes da queda: “É bom comemorar bastante, porque vai ser difícil ver esse time ser campeão novamente”. Até poderia discordar dele por ter visto do título da Segunda Divisão no ano seguinte, mas não era algo que pudesse me orgulhar.

Ainda assim, foi um período bem divertido como torcedor. Ao lado do meu pai, pude me iludir com inúmeros jogadores de qualidade duvidosa, além de assistir aos jogos e conversar todos os dias sobre futebol. Essas experiências nunca mais saíram da minha cabeça, até porque torcer na derrota é uma tarefa verdadeira tarefa de amor por um clube — e eu vivi isso.

A arrancada heroica da minha vida

Infelizmente, tive que dar adeus ao meu melhor amigo. No ano em que o Palmeiras completou 100 anos, em 2014, meu pai faleceu num acidente no dia 29 de janeiro. Ainda era uma criança de 11 anos e conheci uma dor muito maior do que qualquer rebaixamento. O caótico ano do Centenário ficou pequeno perante tudo que senti.

A vida, generosamente, me trouxe outros presentes. No futebol, as conquistas voltaram para o Campeão do Século XX. O Palmeiras voltou a ser competitivo, conquistando três títulos nacionais (2015, 2016 e 2018). Simultaneamente, pude amadurecer, fazer novos amigos, me formar, encontrar um amor e receber um enorme presente – uma irmãzinha caçula.

Curiosamente, a conquista da Libertadores de 2020, a minha Glória Eterna enquanto torcedor, aconteceu no dia 30 de janeiro — um dia após completar 7 anos da minha perda. Esses pequenos detalhes de nossas vidas são inexplicáveis, assim como o nosso maior sentimento que é o amor.

Minha vida continuou e o amor pelo meu pai (e pelo Palmeiras) continuam comigo pois fazem parte da minha essência. Fazem parte de quem eu sou — e eu definitivamente amo isso.

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