Entrevista com a Bia – Jogadora Profissional de Valorant pela Havan Liberty

A busca pela aceitação e pela inclusão da mulher no cenário dos jogos e dos eSports vem se tornando cada vez maior, e com isso algumas mulheres já conseguem garantir o seu espaço nesse universo. Uma dessas mulheres é Beatriz Terra, mais conhecida como Bia, que tem 20 anos e é jogadora profissional de Valorant.

Conversamos com Bia sobre sua carreira e sobre as mulheres no geral. Foi um bate-papo muito importante e que vale a leitura, pois conhecer a visão de uma mulher que conquistou seu espaço nos eSports mostra o quão importante é lutar por essa causa.

O começo De tudo

Iniciar uma carreira no mundo dos games como um jogador profissional é uma tarefa complicada, e quando se trata de uma mulher buscando por esse início, as coisas se complicam ainda mais, visto que é notável a diferença existente entre o cenário masculino e o feminino. Sendo assim, perguntamos para Bia como foi o momento em que decidiu que era sua vez de iniciar sua carreira, e quais foram as maiores dificuldades encontradas nesse trajeto:

“Eu já tinha contato com o cenário desde muito nova, meu irmão sempre jogou CS e acompanhava o cenário nacional, ele sempre falava muito do Fallen e do Cogu, nisso despertou meu interesse de ir atrás e saber quem eram eles e foi quando eu descobri que queria ser igual eles. Uma das maiores dificuldades foi a falta de investimento no cenário feminino. Enquanto os times masculinos recebiam um salário mínimo, a gente recebia divulgação no Twitter e premium na GC pra poder competir.”

Outra dificuldade que mulheres enfrentam são as situações desconfortáveis durante as partidas. Dessa maneira, questionamos se Bia já havia passado por uma situação dessas e quais foram as consequências disso:

“Sim, já. Desde o mais ‘simples’ como xingamentos dentro do jogo, perguntar se eu era uma criança ou uma mulher, mandar lavar a louça até os mais pesados como assédio, abuso psicológico e abuso sexual. Na época que isso aconteceu eu era muito nova então não entendia direito, já passei por muitos momentos que saia de uma partida chorando porque não entendia os xingamentos, achava que eu não podia estar fazendo aquilo, que não devia estar jogando e sempre acabava desanimando e parando de jogar por um tempo. Os casos mais sérios como assédio e abusos aconteceram quando eu tinha 15 anos e só fui entender o que aconteceu na época recentemente. Isso fez eu abrir meus olhos sobre as pessoas que estão por trás do cenário de esports.”

Mudando de assunto, também queríamos saber se Bia tinha alguém que a inspirava a continuar cada vez mais forte na busca pelo seu sonho, apesar de todas as dificuldades. E como esperado, a jovem jogadora, assim como muitos outros pro-players, tem suas inspirações:

“Quando comecei a jogar competitivamente em 2014 eu jogava CS:GO e sempre tive uma admiração muito grande pela Showliana, como mulher, e pelo Fallen e o Cogu por terem chegado tão longe. Sempre acompanhei mais o cenário de LoL por ter jogado antes de ir para o CS, então pra mim não era normal ver brasileiros competindo de igual pra igual com o pessoal de fora, quando fiquei sabendo sobre eles eu me encantei e falei que era isso que eu queria, ser boa o suficiente pra jogar lá fora.”

Acolhida por um time

Para se aventurar no cenário competitivo é necessária uma equipe e, com o avanço da luta pela aceitação e inclusão da mulher nos eSports, muitos times abriram suas portas para elas, além da criação de times exclusivamente femininos. Bia contou como é fazer parte de um time, a Havan Liberty:

“A estrutura que a Havan disponibiliza para a gente é absurda. A Bia que jogava em 2014 em troca de um premium na GC não consegue acreditar em tudo que a gente vem conquistando, principalmente nesses investimentos das organizações em um jogo tão incerto como o Valorant. Até o momento não temos um campeonato oficial da Riot anunciado e mesmo assim a Havan confiou no nosso potencial no próprio cenário misto.”

Inclusão e aceitação

Um assunto que não poderíamos deixar de abordar, e que está sendo citado aqui desde o começo da matéria, é a inclusão e aceitação da mulher nos games, a partir disso continuamos com uma conversa bem interessante com a pro-player. Perguntamos se Bia acredita que o cenário dos eSports está se tornando mais receptivos com as mulheres, e com a experiência que ela alcançou fazendo parte desse universo, ela respondeu:

“Acredito que sempre vá existir aquelas pessoas que não aceitam as mulheres jogando, porém dá para ver drasticamente uma mudança de uns anos para cá. Ter o apoio das desenvolvedoras de jogos com o banimento daqueles que falam besteira é crucial para ter uma comunidade receptiva, assim como nos esports ter o apoio dos influenciadores também faz a mudança.”

É perceptível que, para o crescimento do cenário feminino, mudanças são necessárias tanto no mundo dos jogos quanto no cenário competitivo. Aproveitamos o momento para perguntar a Bia quais as mudanças que ela gostaria de ver para uma maior inclusão das mulheres, e como esperado, ela nos respondeu:

“Acho que no competitivo o que mais falta atualmente são campeonatos femininos que classificam para campeonatos mistos. Um exemplo disso foi o campeonato da Rivals, que teve uma edição exclusiva feminina e a ganhadora garantia uma vaga para o campeonato principal deles. Já no mundo em geral dos jogos falta tratar com normalidade uma mulher jogando, ou até mesmo uma mulher jogando BEM.”

Os campeonatos masculinos possuem diversas empresas como patrocinadores, diferentemente dos campeonatos femininos, que têm uma lista escassa de apoiadores. Tendo isso em vista, queríamos saber se Bia acredita que, em algum momento, os patrocinadores de campeonatos masculinos vão olhar para o cenário feminino e apoiá-lo da mesma maneira:

“Acredito que se tivermos a mesma visibilidade, sim. Querendo ou não, é tudo uma questão de dar retorno para os patrocinadores, nenhuma marca grande vai querer patrocinar um campeonato que não pega muitos espectadores e não tenha um bom marketing, por isso é muito importante que a própria comunidade acompanhe o cenário feminino.”

Por fim, pedimos para Bia deixar um recado para as mulheres que pretendem entrar no cenário dos eSports, ou que simplesmente querem se aventurar no mundo dos jogos:

“O recado que eu deixo é se dedique, procure sempre evoluir, tente manter a sua mente saudável e o mais importante de tudo: não desista do seu sonho.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: