Holanda: A eterna “quase-campeã” mundial

Considerada uma das seleções mais importantes e tradicionais do futebol, a Holanda nunca conquistou uma Copa do Mundo — e acredite, não foi por falta de tentativa

Poucas seleções na história do futebol impactaram tanto o esporte quanto a seleção holandesa. Embora conte com apenas 10 participações em Copas do Mundo, a famosa “Laranja Mecânica” chegou em três finais e duas disputas de terceiro lugar. No entanto, o tão sonhado título mundial não veio — até o presente momento em que escrevo esta matéria, ao menos.

Apesar disso, seria um erro crasso resumir a importância da Holanda para o futebol a três medalhas de prata. Além da conquista da Eurocopa de 1988 — vencida por uma geração de craques como Rudd Gullit, Marco van Basten, Frank Rijkaard e Ronald Koeman — o imenso legado do futebol holandês segue influenciando o futebol até os dias de hoje. E para falar sobre futebol, Holanda e Copa do Mundo, é impossível não citar o nome de Johan Cruyff.

O Carrossel Holandês de Johan Cruyff

Foto: Divulgação/FIFA

Assim como a história da humanidade se divide entre “antes e depois de Cristo”, o futebol holandês também se divide em “antes de Cruyff e depois de Cruyff”. Não à toa, até 1964, a Holanda tinha apenas dois jogadores profissionais — um deles era um jovem Cruyff, de apenas 17 anos. Em Copas do Mundo, o país colecionava duas participações, dois jogos e duas derrotas (em 1934 e 1938).

Porém, tudo mudou com a ascensão de uma das maiores potências da história do futebol europeu, o Ajax de, adivinha… Johan Cruyff. Foi um sucesso estrondoso e meteórico para a equipe de Amsterdã, pois os jogadores que eram amadores até 1964 se tornaram tricampeões da Liga dos Campeões da UEFA nos anos 70 (1970-71, 1971-72 e 1972-73).

Donos de uma filosofia revolucionária denominada “Futebol Total”, a fortíssima equipe do Ajax valorizava um estilo de jogo extremamente tático e vistoso. Todos os jogadores de defesa atacavam, assim como todos os atacantes defendiam. A pressão pela bola era constante aos 90 minutos de jogo. Além disso, nenhum jogador possuía uma posição definida dentro de campo. Dessa forma, as trocas de posição eram constantes — assim como a dor de cabeça dos times adversários.

Esse verdadeiro Carrossel foi base para a famosa seleção de 74 — considerada uma das melhores seleções da história das Copas. Cruyff, o condutor daquele time, era impecável. O camisa 14 era um verdadeiro treinador dentro das quatro linhas, organizando o time ao mesmo tempo que desfilava com a bola. Perfeccionista, sua busca pelo jogo bonito virou frase: “La pelota és mia, pelota al piso” (a bola é minha, bola no chão).

Dessa maneira, a Laranja conquistou o planeta naquele ano. Derrotando Uruguai, Argentina e Brasil (atual tricampeão), a confiança pelo título era certa pelos jogadores. E essa confiança só aumentou com o começo perfeito da equipe na grande final. Em apenas 15 passes após a saída de bola, a Holanda colheu os frutos de sua envolvente movimentação com um pênalti. Johan — Neeskens, não o Cruyff — marcou o gol aos dois minutos contra a anfitriã Alemanha.

Aos 2 minutos de jogo, o inédito título holandês parecia bem encaminhado. Entretanto, ainda no primeiro tempo, a Alemanha virou o placar com Paul Breitner e Gerd Muller. A Holanda, mesmo pressionando, não conseguiu balançar as redes e amargou ver Franz Beckenbauer levantando a taça de campeão mundial.

2010: O Carrossel agora é outro

Foto: Divulgação/FIFA

Quatro anos após a traumática derrota para a Alemanha, a seleção holandesa voltou a disputar uma final no polêmico mundial de 1978, na Argentina. Contudo, sem Cruyff, o time foi novamente derrotado pelos anfitriões, dessa vez por 3 a 1. O futebol, por outro lado, aprendeu muito com a Holanda dos anos 70 — em especial, o gigante espanhol Barcelona.

Ex-jogador do time catalão, Johan Cruyff foi contratado para mudar os ares de um Barcelona sem o mesmo brilho do passado — bem similar à atual equipe. Como treinador, Cruyff reuniu jogadores com grande capacidade intelectual para passar os seus conceitos de jogo. Conceitos como controle da posse de bola, movimentação constante dos companheiros — possibilitando três ou quatro alternativas de passe — e pressão na saída de bola adversária. Em outras palavras, a cultura do time azul-grená ganhou fortes tons de laranja.

Josep ‘Pep’ Guardiola, um de seus comandados, usufruiu imensamente dessa filosofia de jogo enquanto jogador e, posteriormente, treinador. Assim como seu mentor, Guardiola levou o Barcelona ao topo do futebol mundial entre os anos de 2008 e 2012, vencendo duas Champions, três La Ligas e dois Mundiais de Clubes. Simultaneamente, a seleção espanhola montava o seu próprio “carrossel” para a Copa de 2010 na África do Sul.

Em contrapartida, a Holanda foi na contramão da La Fúria. Ao contrário do “tiki-taka” espanhol, o time holandês apresentou um estilo de jogo pragmático no Mundial, dependendo do individualismo de suas estrelas — Arjen Robben, Wesley Sneijder e Robin van Persie. O destino foi poético e reservou uma final entre as duas seleções, Espanha e Holanda.

A partida, no entanto, passou longe de ser um espetáculo. Podemos dizer, todavia, que foi um verdadeiro show para os fãs de MMA. O jogo teve 13 cartões — sendo 9 para a Holanda. Como uma pegadinha dos deuses do futebol — que não coroaram a fantástica equipe de 74 — o grande campeão daquela Copa foi um carrossel, mas o espanhol. Um dos cérebros do Barcelona, Andrés Iniesta, aos 116 minutos da prorrogação, deu o título inédito à Espanha.

Curiosamente, a seleção holandesa de 1974 criou uma equipe que derrotou a própria Holanda de 2010. Cruyff, por outro lado, afirmou não ter torcido para seu país na ocasião por reprovar o futebol apresentado. Em suma, os Países Baixos seguem revelando talentos e influenciando treinadores ao redor do mundo. Mas fica a dúvida: será que algum dia veremos a Holanda superando o quase?

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