Passado, presente e futuro: Serena Williams e Naomi Osaka

Se existem dois nomes certos na WTA (Women’s Tennis Association) que acendem faíscas sempre que se encontram, são essas duas. Em quadra desde 1995, Serena Williams, de Michigan, figurou no Top 1 do mundo cinco vezes, e no Top 10 outras dezesseis. Durante seus vinte e cinco anos de carreira, Williams dominou a liga por quase duas décadas mesmo quando se lesionava, e conseguiu vinte e três troféus de Grand Slam.

Naomi Osaka, de Osaka, só entrou na Associação de Tênis em 2012, e em oito anos de carreira dezessete a menos que Serena esteve no Top 5 somente três vezes. Seus primeiros seis anos foram instáveis em comparação aos de Williams, que mesmo aos 35 anos de idade, estava no Top 2 do ranking. Elas nunca tiveram atritos, mas deram muito o que falar no primeiro ano em que se enfrentaram, seja positivamente ou negativamente.

2018: um ano de conquistas, mas repleto de derrotas

Foto: Lynne Sladky/Associated Press

Vinda da posição número 68 do ranking um lugar não muito agradável para quem estava no Top 40 , Naomi Osaka começou 2018 a todo vapor, jogando no Abertos de Hobart e Austrália. Em Hobart, foi eliminada no primeiro jogo, mas seu desempenho melhorou no primeiro Grand Slam do ano, caindo na quarta rodada. Antes da primeira conquista do ano em Indian Wells, a japonesa ainda teve passagens por Doha e Miami, sendo nenhuma delas muito memoráveis.

Serena Williams, no entanto, estava afastada da metade de 2017 até os meados de 2018 por conta de sua gravidez. Depois que seu filho nasceu, estreou direto em Indian Wells, e mesmo fora de forma, conseguiu chegar à última fase antes das oitavas de final. Tudo indicava que as duas iriam se encontrar ainda naquele torneio, mas Serena teve que enfrentar Venus, sua irmã, e não teve chances de passar adiante.

Osaka continuou vencendo até as finais, e garantiu seus primeiros mil pontos na WTA ao derrotar Daria Kasaktina. Foi o primeiro título valioso da carreira de Naomi, que pressagiou o seu futuro. Williams, por outro lado, seguia tentando se encaixar no tênis mais uma vez.

O primeiro confronto das duas foi no Aberto de Miami, logo na primeira fase. Eram duas narrativas distintas: Osaka vivia o sonho de enfrentar sua referência, e Serena tentava manter seu sonho de continuar sendo jogadora. No fim das contas, a americana levou a pior. Naomi estava imparável e fechou a partida em dois sets, selando mais uma tentativa de Williams, que não perdia nessa fase há 21 anos, de se reafirmar.

O tempo em que ficou parada prejudicou substancialmente a ex-top 1 do mundo, que tentou chegar às finais em Roland Garros, Wimbledon, Stanford e Cincinnati, mas acabou falhando. Naomi não estava melhor: além de perder no confronto seguinte no Aberto de Miami, jogou mais dez torneios e foi eliminada em todos. Ambas foram buscar uma ressurreição no terceiro Grand Slam do ano, o US Open, e conseguiram. Mas talvez tenha sido uma das piores experiências da vida delas, seja para a perdedora ou para a vencedora se é que houve alguma.

O pior US Open que Osaka poderia conquistar

Foto: Timothy A. Clary via Getty Images

O US Open de 2018 prometia. Naomi Osaka havia destruído em duas das três rodadas iniciais e Serena Williams havia tido sua vingança contra a irmã. Nas oitavas, ambas tiveram turbulências, mas passaram tranquilamente das quartas e das semis até chegarem às finais, em que se enfrentariam pela segunda vez no ano, mas dessa vez valendo muito mais.

O primeiro set foi de superioridade da japonesa, fazendo seis games contra de dois de Williams, e colocou em risco a permanência da americana nas finais. No entanto, era esperado que Serena equilibrasse o jogo, mesmo com a concentração incisiva de Naomi. Contudo, o drama da heptacampeã do US Open não foi com sua adversária, mas com o árbitro Carlos Ramos, que acabou protagonizando negativamente o confronto.

Após a vitória da nipônica no primeiro set, o segundo foi marcado por sua disputa sem fim fora do jogo. Enquanto Naomi tentava se manter na liderança, Serena defendia seu caráter. Logo no começo do set, foi advertida por coaching. Segundo Carlos Ramos, o instrutor de Serena, Patrick Mouratoglou, estava a orientando do banco através de gestos o que é proibido no tênis. Aquele foi o primeiro choque que Serena e o árbitro tiveram antes de implodir em algo ainda maior.

”Uma coisa que eu nunca fiz foi trapacear, nunca. Eu prefiro perder”

Essa e muitas outras frases foram proferidas. Serena tentou ser compassível com a situação em que seu técnico e o árbitro a colocaram, mas quanto mais ela se explicava e se esforçava para continuar com a cabeça no jogo, mais chegava à conclusão de que Carlos era sexista. Ele foi muito agressivo na penalidade, pois geralmente é dado apenas um aviso formal ao jogador antes da punição algo que não é uma regra pré-estabelecida.

Frustrada, a americana ainda conseguiu passar a japonesa no segundo set, mas explodiu em um dos erros não forçados dela e esmagou sua raquete no chão, cometendo outra infração. Graças a isso, Naomi começou um game com 15 pontos. Serena não se calou e continuou a indagar Ramos mesmo quando ia ao banco, e isso terminou em mais uma infração.

Não bastando a perda de 15 pontos, ela também perdeu um game por conta das decisões do juiz que, no ponto de vista técnico, estava sendo muito rígido. As justificativas secas de Carlos e o desentendimento sem fim com a americana fizeram com que Williams pedisse pelos oficiais do torneio: Brian Earley, o árbitro-chefe, e Donna Kelso, a supervisora do Grand Slam.

Foi uma final caricata, no pior sentido das definições. Williams se impôs aos oficiais, trouxe pautas importantes e desmascarou um possível preconceito velado do árbitro, enquanto a plateia vaiava a comissão fortemente. Quem sobrava era sempre Naomi, que estava na vantagem, mas não se sentia assim.

Mesmo após todas as explicações, não houve mudanças nas decisões, e Serena voltou às quadras com o mínimo de satisfação por ter sido ouvida. Ela estava dispersa, mas Osaka não, e a partida tornou-se unilateral até a japonesa cravar a sua vitória e conquistar seu primeiro título de Grand Slam.

No pódio, ela foi recebida com mais vaias e injúrias. Foi como se ninguém acreditasse que o troféu tivesse sido fruto de seu esforço, e mesmo vencedora, Osaka chegou a se desculpar aos prantos com o público por ter ganho no lugar de Williams. No entanto, Serena não deixou passar, acolhendo a pessoa que a derrotou e tentando abrandar o público para que apreciassem o momento da japonesa, expressando seu orgulho por Naomi.

O US Open teve seu desfecho, mas o que aconteceu ali dentro não. E mesmo que não fosse consensual, ali foi instituída uma rivalidade por conta desse caso e de diversos outros assuntos que repercutiram por anos.

Cabeça a cabeça: as outras disputas entre Osaka e Williams

Foto: AP Photo/Andy Brownbill

Elas se enfrentariam mais três vezes nos próximos três anos, e em todas elas, houve grande expectativa do público, no aguardo por uma revanche da americana. A primeira vez desde o US Open foi em 2019, no Aberto do Canadá. Ambas ansiavam pelos mil pontos, mas quem levou a melhor foi Serena, que certamente não estava mais fora de forma.

No torneio canadense, a americana era uma das favoritas ao título, mas precisou abandonar o campeonato por conta de uma lesão. Houve também uma grande chance de Serena e Naomi se encontrarem nas finais do US Open de 2020, mas Williams perdeu para a bielorrussa Victoria Azarenka, que posteriormente seria derrotada pela própria Naomi Osaka na final.

Os próximos dois confrontos foram em semifinais, ambos em 2021. Osaka perdeu o torneio de exibição de Adelaide para Serena, mas venceu nas semifinais do Aberto da Austrália (que terá sua vencedora decidida nesse sábado, 20). Cabeça a cabeça, Naomi venceu 3 partidas, e Williams, 2. É provável que elas não tenham muitos confrontos pela frente devido à idade de Serena, mas independente do cenário, a lenda do tênis estará deixando o esporte em boas mãos.

A rivalidade das duas foi fruto de um evento infame, mas que fique claro: não há mágoas de uma pra outra, apenas admiração e respeito, já que ambas conseguem desfilar nas quadras neste presente momento como o passado e o futuro do tênis feminino.

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