A Guerra Fria no Basquete

Em plena Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética travaram verdadeiras batalhas dentro e fora das quadras de basquete nos Jogos Olímpicos 


Mini resumo da Guerra Fria (é mini mesmo, pode acreditar)

Antes de mais nada, para falarmos sobre a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética no basquete é preciso relembrar o contexto histórico desses confrontos. Entre 1947 e 1991, as duas grandes potências econômicas, políticas, sociais, bélicas, tecnológicas, culturais, esportivas — e qualquer outra coisa você possa imaginar — protagonizaram um conflito pela hegemonia global. 

Essas potências eram nada mais, nada menos que — os já citados anteriormente, mas que irei repetir para ficar bonitinho – Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). Ambos os países possuíam inúmeras divergências, especialmente em seus sistemas políticos e econômicos. Enquanto os norte-americanos eram (e continuam sendo) a grande potência capitalista da época, os soviéticos possuíam um (até então) sólido sistema socialista. 

Durante a Guerra Fria, os dois países não chegaram a lutar diretamente em um combate bélico, mas criaram uma enorme tensão com seus mísseis nucleares, apoiaram guerras ideológicas ao redor do mundo, financiaram regimes militares e disputaram a famosa Corrida Espacial que culminou na Chegada do Homem à Lua em 1969 — uma vitória dos norte-americanos no duelo.

No esporte não foi diferente. Ambos os países viram uma grande oportunidade, nas edições dos Jogos Olímpicos, de provarem superioridade perante o rival, sobretudo, aos olhos de todo o planeta. Com isso, a briga pela liderança no quadro de medalhas era intensa entre EUA e URSS, especialmente nos confrontos diretos. 

Enfim entramos no basquete pois, dentro das quadras, o combate não foi nada “frio” entre as superpotências. 


Capítulo 1 – A Batalha de Munique

Entre 1936 e 1968, os EUA venceram todas as sete edições de basquete nas Olímpiadas. Das sete, quatro foram em finais contra a URSS. A supremacia norte-americana no basquete, somada a virada sofrida na corrida espacial, estavam entaladas na garganta dos soviéticos. Em constante evolução, a seleção soviética foi campeã mundial em 1967, mas amargou a medalha de bronze na Cidade do México no ano seguinte. 

Para a edição de Munique, em 1972, os Estados Unidos chegaram à final com o seu elenco mais jovem até então. A União Soviética também chegou à disputa do ouro, contudo, era tida pelos norte-americanos como uma equipe “mista” — algo que, em teoria, estaria contra as regras da FIBA que proibia a participação de profissionais nas Olímpiadas. 

A declaração do correspondente norte-americano, Frank Saraceno, afirmando que o time soviético era “quase profissional”, aumentou ainda mais a rivalidade entre as duas equipes. Liderados por Sergei Belov e Alexander Belov — dupla que tinha 7 anos de parceria — a URSS chegou como azarão contra os EUA do gigante Tommy Burleson e do treinador Henry Ayba — que defendiam uma invencibilidade de 63 jogos. 

USA vs URSS: A guerra dentro das quadras 

Foto: Reprodução da Internet

O favoritismo, porém, não se concretizou durante a partida. A seleção soviética passou boa parte da partida a frente no placar, demonstrando a experiência e vontade de quebrar a hegemonia norte-americana no basquete. No entanto, a vantagem que era de 10 pontos virou apenas de um ponto no fim do último quarto. Para piorar, a virada dos EUA veio na linha de lances livres. 

Doug Collins acertou os dois lances livres nos últimos segundos de partida e deixou o placar em 50-49 para os Estados Unidos. Após essa cesta, o jogo foi paralisado por conta de um erro no cronometro, que ocasionou ainda mais tensão nos jogadores. No retorno, com três segundos no cronometro, Ivan Edeshko, assustado com o barulho da sirene — que tocou no primeiro segundo — atirou a bola contra a tabela no desespero. 

Os jogadores dos EUA começaram a comemorar o título olímpico. Porém, o secretário-geral da FIBA, William Jones, precisou intervir para corrigir o erro da equipe da arbitragem. A tribuna havia ignorado o pedido de tempo soviético, ocasionando o erro da sirene. A bola foi reposicionada, Edeshko conseguiu fazer a saída de bola, Alexander Belov venceu a batalha aérea pela bola e fez a cesta da vitória (terminando 51-50) e, dessa vez, a sirene tocou no momento certo. 

Pela primeira vez na história a União Soviética vencia a medalha de ouro olímpica no basquete. Era a primeira derrota da seleção norte-americana na história. Na Guerra Fria de Basquete, os soviéticos venceram a “Batalha de Munique”. 


Capítulo 2 – Os Boicotes da Guerra Fria

Logo após a vingança dos EUA em Montreal (1976), a edição seguinte de 1980 dos Jogos Olímpicos seria em Moscou, solo soviético. Entretanto, não voltaríamos a ver as duas seleções se enfrentando tão cedo dentro das quadras olímpicas. Liderados pelos Estados Unidos, 62 países decidiram boicotar a edição de Moscou, justificando como um protesto pela invasão soviética no Afeganistão, em 1979. 

O boicote foi tão rigoroso a ponto do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, ameaçar cassar o passaporte de atletas que cogitassem participar do evento esportivo. Apesar disso, a União Soviética não venceu a medalha de ouro no basquete. A extinta Iugoslávia derrotou a Itália na final, enquanto a URSS venceu a Espanha na disputa pelo bronze. 

Em seguida, na edição de 1984, Los Angeles foi a sede do evento e, novamente, houve um novo boicote. As delegações soviéticas, ao lado de outros países do bloco socialista, decidiram dar o troco boicotando os Jogos. Foram 14 países no total, com exceção da Romênia que possuía maior independência — e ficou em segundo lugar no quadro geral de medalhas. 

Contudo, a seleção norte-americana de basquete – liderada por um jovem Michael Jordan – venceu a medalha de ouro jogando em casa. Seria um sinal de que a hegemonia havia voltado? A resposta veio em 1988, na Batalha de Seul. 


Capítulo 3 – A Batalha de Seul 

Chegamos ao ano de 1988 que marca o último capítulo da nossa história. Para esta edição, os norte-americanos ainda eram favoritos — embora tivessem sido derrotados para o Brasil de Oscar Schmidt no Pan-Americano de Indianápolis em 87 — e contavam com o futuro Hall da Fama, David Robinson.

Por outro lado, os soviéticos tinham uma das seleções mais fortes da época, contando com grandes nomes como Arvydas Sabonis e Sarunas Marciulionis — ambos com boas passagens pela NBA. Após derrotarem o Brasil nas quartas de final, em um jogo histórico (110 a 105), a equipe “vermelha” voltava a enfrentar seu maior rival após 12 anos de espera. 

O time universitário norte-americano até que tentou, mas a vitória foi soviética (82 a 76). Na final, o time liderado por Sabonis teve outra revanche contra a Iugoslávia de Petrovic, Kukoc e Divac. Na disputa do terceiro lugar, os EUA conseguiram a amarga medalha de bronze contra a Austrália. 

As mudanças pós-Seul

Foto: Reprodução da Internet

Foi mais uma derrota extremamente dolosa para o país do Tio Sam. O resultado era inaceitável, principalmente para mídia e fãs que tiveram o “orgulho ferido”. Os Jogos de Seul foram o estopim para uma mudança nas regras da FIBA. Em 1989, uma Assembleia foi realizada para aprovar a liberação de atletas profissionais nas Olímpiadas, a ala favorável ganhou por 56 votos a 13. 

Para as Olímpiadas de Barcelona em 1992, era montado o Dream Team — mas isso fica para um próximo capítulo. Todavia, com a queda do Muro de Berlim no mesmo ano, a União Soviética enfraqueceu e teve o seu fim em 1991, junto com a Guerra Fria. Com a queda do bloco, mais de 15 países tornaram-se independentes, dissolvendo a forte equipe de 1988. 

Dessa forma encerrou-se uma das maiores rivalidades esportivas de todos os tempos. Com certa vantagem dos Estados Unidos, mas vitórias impactantes da União Soviética, essas batalhas mudaram para sempre o maior evento esportivo do planeta além de provar, com todas as letras, que o basquete não se resume à um só país.

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