Montreal e o estigma dos desastres de 1918 e 1919

Se tem um time de hóquei no gelo que luta desde o primeiro ano da NHL para ganhar, esse é o Canadiens. Hoje em dia eles são mais vistos como underdogs — os azarões —, principalmente nas finais da Stanley Cup desse ano, na qual não chegavam há 28 anos.

Mas por incrível que pareça (pelo menos aos novos nesse mundo de hóquei), os Habs — como também são chamados — são os maiores campeões da NHL, possuindo um repertório de 24 troféus, o que dá quase o dobro de taças do Toronto Maple Leafs, o segundo maior vencedor.

Apesar dessas últimas duas décadas de seca, o passado dos Canadiens é de se orgulhar. Mas é parando para olhar sua história que nós nos deparamos ao que poderia ter sido o fim não só da equipe de Montreal, como da própria NHL. Um estigma que Montreal e a liga não esqueceram: os desastres de 1918 e 1919.

“Arena não tem chances de voltar das cinzas”

Esse foi o título da matéria do dia 3 de Janeiro de 1918 que saiu para Montreal. Porém, antes de falar incisivamente sobre o que aconteceu e o que é a ”Arena”, é preciso entender o contexto. E para isso, daremos uma pausa e olharemos ao redor.

1918 foi o ano de estreia da liga, que vinha para suceder a NHA (National Hockey Association) e secretamente, ou não, expulsar Eddie Livingstone da associação. A NHL contava com quatro times: Montreal Canadiens, Montreal Wanderers, Ottawa Senators e Toronto Arenas.

Os dois times de Montreal, Canadiens e Wanderers, dividiam o mesmo espaço: a Montreal Arena, na qual detinha a primeira fábrica de gelo da cidade. Os Habs, antes de integrarem a NHL na temporada 1917-1918, tinham vencido a Stanley Cup de 1916 pela NHA. Já os Wanderers vinham de uma má fase na sua última temporada pela associação.

Além dos fracassos nos jogos, os Wanderers haviam perdido duas peças importantes da equipe e apelavam aos outros times da NHL para que recebessem novos jogadores. Nessa empreitada, conseguiram o goleiro Hap Holmes — Hall of Famer —, mas de nada adiantou. Dos seus quatro primeiros jogos, de dezembro de 1917 até janeiro de 1918, perderam três, e antes que pudessem fazer ajustes, uma calamidade aconteceu.

O incêndio de 2 de Janeiro

Foto: Reprodução da Internet

Voltando um dia antes da matéria intitulada “Arena não tem chances de voltar das cinzas”, chegamos à 2 de Janeiro. Os Wanderers e Canadiens iam se enfrentar na parte da noite, mas infelizmente, a Montreal Arena caiu antes. Um incêndio começou ao meio dia na fábrica de gelo do estádio, e só parou depois de corroer tudo.

Não houveram feridos, porque o incêndio começou cedo. Todavia, as duas equipes de Montreal ficaram sem casa. Os Canadiens se mudaram para a Jubilee Arena, enquanto os Wanderers recorreram a mais apelos. Depois daquele incêndio, a equipe queria ainda mais jogadores, mas os outros times se recusaram.

Os Wanderers haviam perdido muitos atletas para o exército, e foi devido a falta de estabilidade do time — e talvez a incompreensão sofrida — que o seu dono, Sam Lichtenhein, decidiu retirá-los do campeonato, deixando a NHL com apenas três participantes.

NHL por um fio

A pré-temporada de 1918-1919 já dava indícios de como as coisas iriam. Eddie Livingstone, o técnico mais infame da NHA, tentou retornar com a liga três vezes para rivalizar com a NHL, mas falhou em todas. A National Hockey Association continuaria fora do ar.

O fim da Primeira Guerra Mundial foi o suspiro que a liga precisava tomar, mas foi um suspiro breve. Poucos atletas que estavam na guerra conseguiram voltar a seus clubes, e a temporada da NHL começou com três times e programada para ser dividida em duas metades de 10 jogos.

Os Canadiens dominaram a primeira parte da temporada, vencendo 7 partidas, mas não tiveram a mesma sorte na segunda metade. Na verdade, ninguém teve. Isso porque o Toronto Arenas se retirou da liga depois de dificuldades financeiras, encurtando em dois jogos a temporada e deixando os Senators e Habs como os únicos times.

Para decidir quem iria competir a Stanley Cup, a NHL colocou as duas equipes restantes numa série melhor de sete, e o time de Montreal acabou levando a melhor em cinco jogos, classificando-se para as finais contra os campeões da PCHA (Pacific Coast Hockey Association), uma outra liga que competia pela taça Stanley.

O derradeiro ano de 1919

Foto: Reprodução da Internet

A princípio, era para ser uma revanche do time canadense contra seu adversário: Seattle Metropolitans, campeão da Stanley Cup de 1917 em cima de Montreal. Mas muita coisa na série e no torneio não foi como esperado.

Os Canadiens perderam o primeiro jogo e correram atrás no segundo. No terceiro, com tudo empatado, o time de Seattle abriu a vantagem mais uma vez, deixando os Habs pressionados para o quarto jogo — que acabou sendo uma das melhores partidas de hóquei da história.

Os goleiros de ambas as equipes não deixavam passar nada, levando o jogo zerado para a prorrogação. Apesar da força de vontade dos dois lados, ninguém pontuou em duas prorrogações, continuando inflexível. Houveram jogadores caindo de exaustão, e os juízes decidiram encerrar por ali, com tudo empatado.

A equipe de Montreal levou a melhor no quinto jogo — uma espécie de remake do quarto —, com direito a virada e gols épicos, deixando tudo igual no torneio; 2 a 2. Antes do sexto jogo decisivo, tudo parou devido a uma epidemia de gripe espanhola – que rolava no mundo desde 1918.

A Stanley Cup foi cancelada, muitas pessoas sucumbiram. Dentre os finados, Joe Hall — o Bad Joe —, Hall of Famer de Montreal. Parecia que os desastres não paravam de punir a NHL e o próprio time dos Canadiens. Antes que a morte do Bad Joe cicatrizasse, mais um imprevisto. A Jubilee Arena, estádio substituto dos Habs, pegou fogo em abril de 1919. Outro incêndio acometeu os canadenses. De certa forma, outra perda também.

Superação e considerações finais

1918 e 1919 foram dois anos de muitas turbulências e informações, mas serviram como alicerce para a liga ser o que é hoje. Depois do incêndio da Jubilee Arena, os Canadiens construíram a Mount Royal Arena — que nem existe mais atualmente — e se mudaram pra lá em 1920. Também venceram a Stanley Cup de 1924 — e mais 22 títulos no decorrer do milênio.

Retornando ao presente, o time subestimado de Montreal anda sofrendo nas mãos de Tampa Bay, perdendo as finais por 3 a 0. O quarto jogo será nesta segunda (05), às 23h (Horário de Brasília), e se os canadenses não quiserem ser varridos, é bom lutarem por sua permanência, como foi nos primeiros anos de NHL.

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