Gênio incontestável da música, Marvin Gaye tentou a sorte no Detroit Lions

O lendário artista da Motown Records, Marvin Gaye, fez testes para jogar profissionalmente futebol americano no Detroit Lions da NFL


Poucos artistas podem afirmar, com todas as letras, que revolucionaram a música e a cultura. Marvin Pentz Gay Jr. — ou simplesmente Marvin Gaye (1939-1984) — é um destes artistas. Dotado de uma voz potente e cativante, Marvin se destacava por uma enorme presença de palco, além, é claro, do ‘sex appeal’ — característica marcante e fundamental para seus célebres temas românticos como ‘Let’s Get It On’ e ‘Sexual Healing’.

Contudo, a história de Marvin Gaye é uma daquelas que ultrapassa a barreira da música, chegando inclusive a transitar pelo esporte — mais precisamente pelo futebol americano. O músico da Motown Records — lendária gravadora de Detroit, mundialmente conhecida por produzir artistas negros —, em um dos momentos mais conturbados de sua carreira, viu na bola oval a chance de ressignificar sua vida.


“O que está acontecendo, irmão?” (Música 2 – Lado A)

O começo da década de 1970 foi extremamente conturbado para Marvin. Tammi Terrell, sua parceira de duetos clássicos como ‘Ain’t No Mountain High Enough’, faleceu com apenas 24 anos de idade, diagnosticada com um tumor cerebral. Essa perda foi um tormento tremendo para o cantor, numa época que os Estados Unidos tentavam se recuperar das perdas de nomes como Martin Luther King, Malcolm X e John F. Kennedy.

Além disso, divergências criativas com a Motown (por não querer cantar músicas românticas) e o retorno de seu irmão Frankie aos EUA — que havia servido por três anos na Guerra do Vietnã — foram outras angústias na vida do cantor. É sempre válido lembrar o quanto a imagem dos soldados norte-americanos foi afetada pós-Vietnã. Assim como os outros soldados, Frankie sofria com fortes represálias da população.

Todos esses fatores contribuíram para que Marvin se visse afundado em um período de depressão e dependência química. Porém, uma improvável amizade com dois jogadores da NFL mudaria para sempre a história do cantor e da música.


“Ficará tudo bem!” (Música 1 – Lado B)

Vizinhos de cidade, os jogadores Mel Farr e Lem Barney, do Detroit Lions, criaram uma grande amizade com o cantor. A proximidade entre eles foi tão genuína que Marvin, para a surpresa da dupla, manifestou sério interesse em ser um companheiro de equipe.

Na época, com 31 anos de idade, Marvin Gaye se convenceu de que poderia realmente ser um jogador profissional da NFL. A obsessão do artista por esportes, no entanto, sempre esteve presente. Frankie chegou a comentar que Marvin preferia “receber um passe e marcar um touchdown no Tiger Stadium que conseguir outro disco de ouro”.

Fã assíduo do Tigers, Marvin frequentava a maioria dos jogos no Tiger Stadium e, com a ajuda de Farr e Barney, começou um treinamento intensivo na esperança de conseguir um teste no Lions.

Embora não houvesse a garantia de uma seletiva, Marvin passou a levantar peso e correr entre de 7 a 8 quilômetros por dia. Ocasionalmente, o cantor também treinava na Universidade de Michigan — tendo o apoio do futuro Hall da Fama Charlie Sanders.

O seu foco era tanto que sua garagem repleta de carros — com direito a um Rolls-Royce — ficou vazia para realizar sua rotina de treinamentos. Como resultado, Marvin ganhou cerca de 13 quilos e, ao contrário de outros períodos de sua vida, se viu afastado das drogas.

A história chamou a atenção de Joe Schmidt, treinador do Lions e fã de Marvin Gaye, que convidou o artista para uma reunião — para ver se ele estava “falando sério”. Marvin tratou de vestir um de seus melhores ternos e demonstrou grande confiança ao afirmar que seria titular a marcaria um touchdown em seu primeiro toque na bola.

Para a surpresa de Schmidt, Marvin revelou que nunca havia jogado futebol — nem no ensino médio e nem na faculdade. Entretanto, Schmidt deu uma oportunidade para Marvin num teste com cerca de 20 espectadores. O treinador o testou em diversas posições (quarterback, running back, tight end, wide receiver e fullback).

Empolgado com a possibilidade de jogar com seus amigos, Marvin fez uma oração antes do treino e demonstrou o foco de um profissional — executando as rotas e se alinhando sempre que solicitado.

Para a surpresa de todos, Schmidt achou Marvin “decente” para alguém que nunca havia jogado futebol americano. Entretanto, ser “decente” não era suficiente. Marvin Gaye não foi chamado para o “training camp” e, dessa forma, seu sonho de jogar na NFL terminou — mas o ápice da sua carreira musical estava prestes a começar.


“O que está havendo?” (Música 1 – Lado A)

A parceria entre Gaye, Farr e Barney não havia terminado ali. Antes do teste de Marvin no Lions, o cantor havia convidado a dupla de atletas para gravarem faixas vocais na música ‘What’s Going On’. Na faixa é possível ouvir os jogadores tendo um diálogo que serviu como o som de fundo para uma das maiores músicas da história.

Lançada em 1971, What’s Going On integra o álbum de mesmo nome que aborda a sociedade norte-americana na perspectiva de um veterano do Vietnã – uma alusão clara ao Frankie Gaye —, assim como um caso real de brutalidade policial testemunhado por Renaldo Benson (um dos autores).

Tanto a canção quanto o álbum foram sucessos estrondosos, sendo considerados sucessos de público, crítica e se tornando um marco na cultura popular. Além de resgatar a carreira de Marvin Gaye, a obra é considerada pela Revista Rolling Stone como o maior álbum de todos os tempos — ultrapassando Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, em 2020.


O cantor que queria jogador futebol americano para se sentir útil novamente, conseguiu dar a maior volta por cima da história da música. E por que não dizer que o esporte deu uma “ajudinha” para isso, não é mesmo?

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