A Rússia está participando dos Jogos de Tóquio? Relembre o grande esquema de doping russo

Banida de sua segunda Olímpiada consecutiva em decorrência de esquemas de doping, a confederação russa está disputando os Jogos de Tóquio sem nome, bandeira e hino


Por Fernanda Della Monica e Marcos Cruz

Para quem está acompanhando os Jogos Olímpicos, um detalhe no quadro de medalhas tem chamado atenção. Quando nos deparamos nas primeiras posições do quadro, lá está a “estranha” sigla ROC (Comitê Olímpico Russo) ao invés da tradicionalíssima Rússia. Além da sigla, o Comitê não faz uso da bandeira nacional, e muito menos do emblemático hino russo.  

Para os fãs esportivos mais casuais a ausência de uma das maiores potências olímpicas da história causa certo estranhamento. Entretanto, nesta matéria relembraremos todos os motivos que levaram o COI (Comitê Olímpico Internacional) a banir o maior país do planeta de seus Jogos.  


A vida imita a arte, ou a arte imita a vida? 

Em 1985, chegava aos cinemas o filme de boxe Rocky IV. No icônico longa de Sylvester Stallone, o grande vilão do filme era Ivan Drago, um boxeador soviético frio, gigantesco e com pouquíssimas falas. Além dos estereótipos — que beiravam em muitos momentos a xenofobia —, o pugilista recebia um enorme investimento do governo da União Soviética, que fornecia equipamentos de ponta e, obviamente, dopagem bioquímica.  

A grande luta de Rocky Balboa (Sylvester Stallone) contra Ivan Drago (Dolph Lundgreen). Imagem: Reprodução da Internet/United Artists

Curiosamente, anos antes o jornalista britânico Andrew Jennings revelou que, nos Jogos de Moscou (1980), oficias da KGB (serviço secreto da URSS) atuaram dentro do COI para minar testes de doping e que os atletas soviéticos foram “salvos com [estes] enormes esforços”. Ainda sobre os jogos de Moscou, um estudo australiano de 1989 afirmou:  

Não há praticamente um vencedor de medalha nos Jogos de Moscou, com exceção dos medalhistas de ouro, que não tenha utilizado um tipo ou outro de droga: Geralmente diversos tipos”. Os Jogos de Moscou poderiam muito bem ter sido chamados de ‘Os Jogos Químicos’”. 


As primeiras denúncias 

As suspeitas de um possível esquema de doping russo se confirmaram quando, em 2010, um funcionário da RUSADA (Agência de Antidopagem Russa), o jogador de futebol Vitaly Stepanov, começou a enviar informações para a AMA (Agência Mundial de Antidoping) alegando que a agência estava permitindo um sistema de dopagem no atletismo. 

Após Stepanov, em dezembro de 2012, a atleta Darya Pishchalnikova também enviou um e-mail para a AMA expondo detalhes sobre um suposto programa de doping estatal do governo russo. No entanto, de acordo com o jornal The New York Times, a agência optou por não abrir inquérito e, de quebra, entrou em contato com agentes desportivos da Rússia. 

Segundo Vitaly Steparov, “Mesmo na AMA haviam pessoas que não queriam essa história”.  Contudo, o documentário de Seppelt “Geheimsache Doping: Wie Russland macht seine Sieger” (O Segredo do Doping: Como a Rússia cria seus Campeões), veio como um verdadeiro “tsunami” para a comunidade esportiva europeia.  

O casal Yulita e Vitaly Stepanov em entrevista. Imagem: Reprodução da Internet/CBS NEWS

O documentário registrou declarações de Stepanov e sua esposa, Yulita, alegando que funcionários envolvidos com o atletismo russo forneciam substâncias proibidas em troca de 5% do salário dos atletas. Os funcionários também enviavam testes falsificados juntamente com os agentes de controle de doping. 

O médico Sergei Portugalov foi um dos nomes citados nas alegações, sendo acusado de envolvimento em organizações de dopagem financiadas pelo Estado durante a década de 1980. 


O esquema de doping russo 

A apuração da AMA teve início com outra denúncia, dessa vez do diretor do laboratório de antidoping russo, Grigory Rodchenkov, que admitiu ter dopado dezenas de atletas, incluindo 15 medalhistas das Olimpíadas de Inverno em Sochi (2014).  

Segundo o ex-diretor, o esquema foi “dirigido, controlado e supervisionado” pelo Ministério do Esporte russo, fazendo uso das vantagens de sediar o evento para burlar o antidoping. As acusações de Rodchenkov, no entanto, não terminaram por aí. Ele ainda garantiu ter dopado atletas antes das Olimpíadas de Londres (2012), durante o Campeonato Mundial de Atletismo (2013), em Moscou, e no Campeonato Mundial de Natação (2015), em Kazan. 

Mariya Savinova nos Jogos de Londres. Imagem: Reprodução da Internet/COI

Tudo leva a crer que o desempenho abaixo da média nos Jogos de Inverno de Vancouver (2010) — em que a Rússia encerrou sua participação com apenas 15 medalhas — foi o “estopim” para o esquema de fraudação. A alta cúpula do esporte russo – incluindo dirigentes e técnicos — aderiu ao doping, tornando essa prática “institucionalizada” no país. 

Durante os Jogos de Sochi, o serviço secreto do país (FSB) teria funcionado em um prédio ao lado do laboratório de antidoping. Segundo o relatório da WADA (Agência Mundial Antidoping), houve um esquema baseado em frascos de urina contaminados por frascos limpos.  

Sendo assim, atletas que testariam positivo para o exame, tinham sua urina substituída por uma amostra limpa — com uma pequena quantidade de sal para que o peso do frasco fosse mantido uniforme.  Um agente da FBS ainda teria acesso ao laboratório, se infiltrando sob um disfarce de encanador — nos moldes dos clássicos filmes hollywoodianos de investigação. 


Quem estava envolvido?

O esquema teria envolvido atletas de várias modalidades entre os anos de 2011 e 2015, incluindo atletismo, levantamento de peso, hóquei, futebol, biatlo, vôlei de praia, natação, esqui, patinação e canoagem, entre outros. Além de envolver técnicos, dirigentes e médicos da RUSADA e o serviço secreto russo. 

Entre os atletas envolvidos estão nomes como Mariya Savinova (campeã olímpica dos 800m rasos), Ekaterina Poistogova (bronze nos 800m rasos dos Jogos de Londres 2012), Sergey Kirdyapkin (campeão olímpico da Marcha Atlética de 20km), Tatyana Cernova (campeã mundial do Heptatlo 2011), Yuliya Zaripova (campeã olímpica dos 3.000m com obstáculos) e Liliya Shobukova (tricampeã da Maratona de Chicago). 

O ex-vice ministro dos Esportes da Rússia, Yuri Nagornykh. Imagem: Reprodução da Internet

Membros do governo como Vitaly Mutko (Ex-ministro dos Esportes e ex-presidente do Comitê da Copa do Mundo de 2018) e Yuri Nagornykh (Vice-ministro esportivo) são nomes listados em documentos da WADA por acobertarem o esquema de dopagem ao longo dos anos. Nagornykh ainda seria tido como o responsável por escolher quais atletas seriam “beneficiados”. 

A conclusão do relatório da comissão independente da WADA foi muito clara, confirmando que atletas russos se beneficiam há anos de um programa sistemático de doping sustentado por propinas. Cerca de 1.417 amostras de controle de doping de vários esportes foram destruídas em dezembro de 2014, segundo o relatório. 


A punição e o “retorno” aos Jogos de Tóquio 

Nos Jogos do Olímpicos do Rio (2016) houve a primeira “resposta” do COI para o Comitê Russo. As descobertas do doping russo foram públicas e, inevitavelmente, a delegação da Rússia teve sua primeira baixa. A IAAF (Associação Internacional de Federações do Atletismo) proibiu a participação de atletas russos em competições internacionais. 

Em 2019, uma nova punição foi estabelecida, a Rússia não poderá ser representada nos Jogos de Tóquio, nos Jogos de Inverno de Pequim (2022) e nos Mundiais de todas as modalidades esportivas, incluindo a Copa do Mundo no Catar (2022). Todavia, os atletas que não estiveram envolvidos nos escândalos conseguiram uma grande conquista. 

O Comitê Olímpico Russo na Cerimônia de Abertura dos Jogos de 2020. Imagem: Reprodução da Internet/COI

Repetindo o mesmo exemplo da antiga União Soviética nos Jogos de Barcelona (1992) — que disputou a Olímpiada como ‘Equipe Unificada’ e utilizando a bandeira olímpica —, o Comitê Russo está presente em Tóquio sem o seu hino, sem a sua bandeira, mas utilizando suas cores (branco, azul e vermelho). 

No momento em que está matéria está sendo escrita, o ROC está na quinta colocação no quadro geral de medalhas com mais de 50 medalhas conquistadas. Mesmo “enfraquecida”, a Rússia segue sendo uma potência esportiva com os atletas que não fizeram parte das fraudes e disputa o esporte do jeito que ele merece ser disputado sempre — com honestidade. 

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