Basquete, coturnos e canetas: Bill Bradley, Bill Walton e a NBA que protesta 

Bill Walton, O Hippie

Bill Walton foi um pivô que jogou na NBA de 1974 a 1988. Selecionado pelo Portland Trail Blazers na 1ª escolha do Draft, Bill foi campeão e MVP (da regular e das Finais) com o Portland, em 1978, e campeão com o Boston Celtics, em 1986. 

Os mais jovens podem desconhecer o talento e a história de Bill, mas definitivamente o assemelham a seu filho, Luke Walton. Luke jogou pelo Lakers e foi técnico da equipe até 2019, atualmente trabalhando no Sacramento Kings. No entanto, nem a carreira profissional, nem a personalidade do filho chegam aos pés de seu pai. 

Bill Walton e o filho, Luke, quando o último era assistente técnico do Golden State Warriors. Foto: Divulgação/NBAE 

Apelidado de Gentil Gigante, Bill tinha um jeito calado e tímido quando adolescente, mas se tornou um líder ao longo dos anos. Engraçado e espontâneo, ele fez sucesso como comentarista e analista de basquete após a aposentadoria das quadras e até ganhou um Emmy pela melhor transmissão esportiva, em 1991. 


Mr. Glass 

Bill Walton é, talvez, o maior jogador que não pode alcançar todo o seu potencial por causa de lesões. Medindo 2,11 de altura, o pivô era bom reboteiro, pontuador e, o que era raro na época, um bom garçom. No ensino médio, Bill teve médias de 29 pontos e 25 rebotes em seu último ano na Helix High School, com 78.3% de aproveitamento (recorde nacional). 

Mas, já no início as lesões começaram a aparecer. Até seu segundo ano na escola, o jovem Walton sofreu com um tornozelo, uma perna e vários ossos do pé quebrados, além de uma cirurgia no joelho. Isso não o impediu de ser uma estrela também no College. Bill foi escolhido pela UCLA e teve como mentor o lendário técnico John Wooden. 

Walton liderou o time a dois títulos nacionais, venceu duas vezes o prêmio de Most Outstanding Player (Jogador Excepcional) e manteve um recorde individual de quase 5 anos sem derrotas (desde o ensino médio). 

Na NBA, o pivô do Trail Blazers carregava o time enquanto estava saudável – o que era difícil. Fora o problema crônico no pé, só nos 2 primeiros anos na NBA, Walton torceu o tornozelo gravemente, quebrou duas vezes o pulso e vários dedos dos pés e das mãos. Mesmo com tudo isso e jogando apenas 209 jogos em seus 5 anos em Portland, Bill conseguiu um anel de campeão e médias de 17,1/13,5/4,4 com 2,6 tocos. 

Depois de Portland, Bill Walton jogou pelo San Diego Clippers, sua cidade natal. Ele contrariou as opiniões médicas que diziam que ele nunca mais conseguiria jogar. Em sua última cruzada por um bom desempenho, Bill contou com um voto de confiança de Red Auerbach – técnico do Celtics – e não o decepcionou. Em 1986 venceu mais um título, dessa vez com recebendo honras de Sexto Homem do ano. 


Um Hippie na NBA 

Vegetariano, hippie, fã até a morte de Grateful Dead, Bill sempre fez questão de deixar claro suas crenças e posições políticas. Ele até cogitou não jogar a NBA para buscar autoconhecimento e paz espiritual. Sua personalidade, por vezes controversa, deixou marcas por todos os times em que passou. 

Bill na capa de uma revista. A estampa na camisa diz: seja bondoso com os animais, não os coma. 

Sua contrariedade à Guerra do Vietnã, por exemplo, o fez ser preso quando ainda jogava por UCLA. O episódio estremeceu a relação entre Bill e seu técnico, John Wooden, que teve que resgatar o pivô e pagar sua fiança. Wooden, apesar de ser contra os protestos e comportamentos polêmicos de Walton, continuou sendo seu amigo e mentor até muito depois de sua aposentadoria. 

Bill e outros colegas sendo levados pela polícia de Los Angeles após protesto pacífico contra a Guerra do Vietnã. 

Bill Bradley, O Político

Um jogador que antecedeu Walton e também foi figura carimbada nos protestos contra a Guerra do Vietnã foi Bill Bradley. Mais conhecido por sua carreira política que seus feitos em quadra, o ala foi draftado em 1965 pelo New York Knicks, venceu 2 campeonatos em 10 anos com a franquia e teve a camisa 24 aposentada pelo time – além de fazer parte do Naismith Basketball Hall of Fame e ter uma medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de Tóquio (1964).  

Antes da NBA, Bradley era uma das maiores estrelas no High School e College. De família rica, Bill estudou em Princeton – time da Ivy League -, se formou em História Americana, conquistou diversos prêmios de Jogador do Ano e vários recordes colegiais. 

Ele foi draftado em 1965, mas não vestiu a camisa no mesmo ano. Bradley decidiu estudar Política e Economia em Oxford. Ao mesmo tempo, antes de assinar oficialmente com o Knicks, Bill jogou na Itália e serviu na Força Aérea dos EUA. 

Foi no ambiente acadêmico que Bradley começou a exercitar seu discurso, participando de debates e se posicionando como um democrata. Desde a infância, Bill sempre presenciou debates políticos em casa, pois sua família tinha laços políticos e seu pai era republicano. 

Bill em um debate acadêmico televisionado pouco antes de jogar pelo Knicks. Ele questionava o presidente e a participação dos EUA na Guerra do Vietnã. 

Enquanto jogava na NBA, Bill continuava apoiando protestos contra a Guerra do Vietnã e campanhas de candidatos democratas em New Jersey; assim que se aposentou das quadras, Bill candidatou-se ao senado e foi eleito. Seu trabalho era focado em política doméstica, como diminuição de impostos, reforma da legislação da criança, apoio à educação e ao meio ambiente. 

Depois do senado, Bradley disputou a presidência dos Estados Unidos, com propostas alinhadas à esquerda e ao progressismo, mas perdeu as primárias e retirou sua candidatura. Mesmo aposentando-se da política, Bradley continuou apoiando candidatos democratas, entre eles Barack Obama, e se opondo publicamente a injustiças. 

Bradley em partida contra o Hawks. Fonte: Manny Rubio/USA Today images. 

Em 2017, o ex-jogador fez questão de publicar uma declaração criticando o presidente Donald Trump quando este afirmou que os jogadores da NFL deveriam ter sido dispensados por se ajoelhar durante o hino em protesto por justiça social. Trump também cancelou a visita do campeão da NBA naquele ano, o GS Warriors, recebendo mais críticas de atletas. 

Atualmente, Bradley é CEO da Allen & Company em Manhattan, o que faz dele um dos poucos homens que deixou marcas no Madison Square Garden, no Capitólio e em Wall Street. E, é claro, ele continua sofrendo pelo Knicks. 

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