Basquete, coturnos e canetas: Kareem Abdul-Jabbar 

Em “Basquete, Coturnos e Canetas”, o leitor fará uma verdadeira viagem no tempo; da fundação da maior liga de basquete do mundo e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo hippie de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: Kareem Abdul-Jabbar. 

Todos conhecem Kareem Abdul-Jabbar, ou, pelo menos, deveriam conhecer. Considerado por muitos o segundo maior jogador de todos os tempos (atrás apenas de Michael Jordan) e o maior pivô entre todos os pivôs, Kareem marcou a história dentro e fora de quadra com feitos que muitos jogadores nunca conseguiram igualar. 

Nascido Ferdinand Lewis Alcindor Jr., o pivô se converteu ao Islã aos 24 anos e adotou o nome árabe, que seria eternizado na regata amarela de número 33 pendurada no Staples Center, em Los Angeles. Com seu indefensável skyhook – o ganchinho maroto que os adversários odiavam -, KAJ ainda é o maior pontuador da história da NBA (38,387 pontos), jogador com mais vitórias, mais arremessos convertidos e terceiro em tocos. De todos os tempos

Antes de fazer tudo isso na NBA, Kareem venceu 71 jogos consecutivos no Ensino Médio e conseguiu uma vaga no time de John Wooden em UCLA. No college, UCLA perdeu apenas 2 jogos, venceu 3 campeonatos seguidos e KAJ ganhou prêmios individuais em todos os anos. Durante uma partida no college, Kareem sofreu lesões na córnea e passou a usar os característicos óculos para proteção. 

Um traço importante na personalidade de Abdul-Jabbar é o seu amor pela educação. Desde criança, o pequeno Lew passava horas e horas na biblioteca; socializar não era uma tarefa muito fácil para ele, sendo negro e medindo 2 metros antes dos 14 anos, Lew era, no mínimo, uma criança esquisita. Seu consolo eram os livros e a música. Apaixonado por Jazz (influência de seu pai, que era músico amador) e cultura, KAJ nem imaginava que se tornaria ele mesmo uma referência para várias gerações. Lew formou-se em História ao mesmo tempo em que era o maior jogador colegial de sua época. 


Moeda da sorte 

Ainda era conhecido como Lewis Alcindor, quando foi escolhido como primeira escolha do Draft de 1969. Naquela época não existia loteria do draft, então a primeira escolha era disputada pelos dois piores times de cada conferência no mais antigo e infalível modo de decisão inventado pelo homem: cara ou coroa. Isso mesmo! A história do Milwaukee Bucks, do Phoenix Suns e da própria NBA poderia ser totalmente diferente se a moeda tivesse virado pro outro lado. 

O Bucks estava na liga há apenas um ano e teve um recorde ruim (27 vitórias), mas não tão ruim quanto o Suns (16 vitórias em 82 jogos). Os dois tirariam a sorte no cara ou coroa para ver quem escolheria o melhor prospecto e a diretoria do Suns resolveu contar com a ajuda da torcida para escolher o lado da moeda; através de uma enquete nos jornais os fãs escolheram “cara”, mas a sorte não sorriu para o Suns naquele dia – há boatos de que não ri até hoje! 

Enfim, o Bucks conseguiu o maior jogador de sua história, responsável pelo seu único título, na sorte da moeda. Ele dominou a liga já no primeiro ano, se tornou Rookie of the Year e liderou o time aos playoffs. Já conquistando aí alguns recordes, como o de único rookie a marcar mais de 20 pontos em mais de 10 jogos em playoffs (recorde quebrado apenas em 2018 por Jayson Tatum). 

No ano seguinte, Lew venceu o sonhado troféu de campeão ao lado de Oscar Robertson, ganhando também o prêmio de MVP da temporada regular e MVP das Finais. Foi então que mudou de nome e passou a ser chamado Kareem Abdul-Jabbar (nobre, servo do Altíssimo). 

Ele ainda ficou mais alguns anos liderando a liga em números individuais, e o Bucks aos playoffs. Mas foi no Lakers que Kareem se tornou ainda maior. 


Showtime Kareem 

Kareem foi trocado para o Lakers em 1975, a essa altura ele já ostentava quatro MVPs e era imbatível em qualquer garrafão que entrasse. Em seus primeiros anos no time angelino, Kareem continuou jogando em alto nível, mas nem isso foi suficiente para parar o Trail Blazers de Bill Walton (já citado no capítulo anterior) ou o Seattle SuperSonics. Contudo, o cenário mudaria com a chegada de Jerry Buss e Earvin Johnson que, ao lado do experiente Abdul-Jabbar formaria o Showtime Lakers. 

Os dois se completavam como peças de um quebra-cabeças; os passes brilhantes e a plasticidade de Magic Johnson eram o que faltava para dar ao pontuador nato Kareem Abdul-Jabbar a ajuda necessária para vencer troféus. Além de James Worthy, Byron Scott e grande elenco de apoio, o Lakers ainda tinha Pat Riley liderando à beira da quadra. 

O esforço valeu a pena: 5 campeonatos, mais um MVP da regular (1980) e um MVP das Finais (1985) para KAJ, mais algumas indicações ao All-Star (ele finalizou com 19 – olha mais um recorde aí!), All-NBA e time de Defesa. Kareem se aposentou aos 42 anos, ainda jogando em um nível muito bom, depois de 14 anos nos Lakers e 20 anos na NBA. A aposentadoria das quadras abriu um espaço na agenda de KAJ para ele fazer algo em que se mostrou tão talentoso quanto pontuar no garrafão: a escrita. 


De jogador a escritor 

Kareem Abdul-Jabbar é um amante dos livros, da educação e da cultura, como já foi dito. Por isso, ao aposentar os tênis, o campeão adotou a caneta e, muitas vezes, sua voz e imagem para mudar o mundo de alguma forma. Kareem já assinou diversos livros sobre os mais variados assuntos: sua própria biografia; alguns livros sobre basquete (como o famoso “Coach Wooden & Me”); uma série de livros sobre Mycroft Holmes, irmão do lendário detetive da Baker Street; e, principalmente, livros sobre protagonismo negro. Como “Brothers in Arms”, sobre participação dos afro-americanos na Batalha do Bulge e na Segunda Guerra Mundial, e “Writing on the wall – a busca por igualdade entre pretos e brancos. 

Kareem também escreve para muitos jornais, como Time, The Hollywood Reporter, The Guardian, entre outros; e já recebeu prêmios de colunista do ano 4 vezes. Seus artigos geralmente falam sobre problemas sociais (já tem várias colunas abordando os protestos após o assassinato de George Floyd), desigualdade, educação e religião. 

Kareem endossa a importância do papel social de atletas, critica a ociosidade daqueles que têm voz e se calam e é contra toda injustiça, não importa para quem. Por exemplo, Kareem criticou o rapper Ice Cube em seu artigo da última semana (aqui) que, ao tentar defender o movimento Black Lives Matter, fez um discurso anti-semita (apoiado pelo jogador da NFL, DeSean Jackson). 

Sendo muçulmano, Kareem também sente o preconceito religioso e isso o fez procurar formas de mudar essa realidade (ele também esteve presente na Cleveland Summit para apoiar seu amigo Muhammad Ali), já viajou ao Oriente Médio em busca de mais conhecimento religioso e social. KAJ mantém o foco também na educação infantil, através do “Camp Skyhook”, um acampamento para crianças ligado à sustentabilidade. 

Por todos os seus feitos, Kareem Abdul-Jabbar foi nomeado embaixador da Cultura dos Estados Unidos em 2012 e até visitou o Brasil para promover a educação e o esporte nas comunidades de Salvador e Rio de Janeiro. 

Abdul-Jabbar também lutou contra um certo tipo de leucemia e acabou se envolvendo também nessa causa. Por seu apoio a pesquisas sobre o câncer, ele recebeu a Double Helix Medal, medalha oferecida a pessoas que impactam positivamente pesquisas na área da saúde. Outra medalha recebida por KAJ foi a Medalha da Liberdade (a mesma recebida por Bill Russell) em 2016, junto a Michael Jordan. 


Ele faz TUDO! 

Como se não bastasse todo o seu protagonismo no basquete, na escrita, nos jornais e comunidades, Kareem também ficou marcado na cultura pop. Sua primeira participação em filmes foi com Bruce Lee (de quem o jovem Kareem era fã assumido) em 1972. Em 1980 participou do filme “Airplane!” e ao longo dos anos 80 e 90 teve várias pequenas participações em seriados como “Três é demais!”, “Um maluco no pedaço”, e vários outros. Recentemente, Kareem participou do programa “Dançando com Estrelas”(2018) e do episódio 16 da 12ª de “The Big Bang Theory”. Este ano foi lançado o documentário “Patriotas Negros: Heróis da revolução” (tradução livre, indisponível no Brasil), apresentado por Kareem, que também é o diretor executivo. 


Hoje, aos 73 anos, Kareem Abdul-Jabbar continua sendo um exemplo para atletas, fãs e toda a sociedade. Dizem que ninguém nunca conseguiu imitar com perfeição o famoso “skyhook” de Kareem, mas se ao menos uma parcela dos fãs seguir seus conselhos e imitar suas boas ações, o legado de Kareem viverá muito tempo depois dele. 

A lição nunca muda, e talvez por isso seja tão difícil de aprender: ninguém é livre até todos serem livres. Como Martin Luther King Jr. disse: ‘Injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à Justiça em todo lugar. Nós estamos em uma inescapável rede de mutualidade.’ Então, vamos agir como se realmente estivéssemos. Se vamos nos sentir afrontados pela injustiça, nos sintamos afrontados pela injustiça contra qualquer um. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: