Basquete, coturnos e canetas: LeBron James, um reinado além das quadras 

Equidade e Promessas, LeBron James é uma plataforma na luta por justiça social. 


LeBron James é o maior e melhor jogador de sua geração, isso é indiscutível. O ‘rei’ ganhou o apelido ainda no ensino médio, quando foi cotado como a próxima super estrela da NBA. As habilidades de James eram absurdas de tal sorte que ele nem foi para o basquete universitário; antes, foi a 1ª escolha do Draft de 2003 pelo Cleveland Cavaliers. Quem via um adolescente famoso no país inteiro e prestes a virar milionário antes da maioridade podia esquecer de sua origem humilde, mas ele não. 

Gloria Marie James segurou LeBron nos braços pela primeira vez em 1984, quando tinha apenas 16 anos. Mãe solteira, ela precisava alternar entre cuidar do filho e trabalhar para sustentá-lo. A família mudava de casa o tempo todo e, nesse meio tempo, LeBron perdia muitas aulas; até que Gloria percebeu que o melhor para LeBron seria ter um lar estável. Ela levou o menino para a casa de Frank Walker, técnico que iniciou LeBron nos esportes. James começou a jogar futebol americano e basquete, se destacando mais neste último. E o resto é história… 


LeBron James. O pagador de promessas 

Em seu ano de calouro, LeBron James assinou um contrato de quase 13 milhões de dólares com o Cavaliers (3 anos), 90 milhões com a Nike (7 anos) e 6 milhões com a Upper Deck (5 anos), além de outros contratos menores. Em suma, o jovem que não tinha nada era agora dono de um império aos 18 anos; mas LeBron não deixou o dinheiro e a fama subir à cabeça e se mostrou não só um atleta de elite, como um homem exemplar. 

Ainda jovem, LeBron prometeu à sua família e amigos que seria o melhor que pudesse ser e faria o bem à sua comunidade. Ele começou por seus amigos, por exemplo: Rich Paul é o agente de LeBron e várias estrelas da NBA com sua Klutch Sports; Maverick Carter é o executivo de marketing de LeBron e responsável pela Uninterrupted, entre outras aventuras do grupo LRMR. Todavia, o legado do rei não se resume a seus amigos de infância, a promessa é cumprida todos os dias às crianças de Akron, Ohio. 

Forma Akron St. Vincent-St. Marys high school star LeBron James holds up one finger during the team's 65-45 win over Virginia's Oak Hill Academy Thursday, Dec. 12, 2002, in Cleveland. James gesture proved prophetic as USA Today named the Irish the top high school basketball team in the country Tuesday, Jan. 7, 2003. (AP Photo/Mark Duncan, File)Fonte: MARK DUNCAN/Associated Press/Bleacher Report 

A LeBron James Family Foundation, baseada na cidade natal do rei, é responsável pela entrada de mais de 1400 estudantes no ensino superior. A fundação investe na alimentação, transporte, mentoria, mensalidade de cursos, assim como todo tipo de suporte para crianças e adolescentes em situação de risco. Em 2018 foi inaugurada a “I Promise School”, escola pública que, além da filosofia de ensino e suporte da LJFF, oferece oportunidades de emprego, cestas básicas para os pais e, por fim, bolsas de estudo para a Universidade de Akron. Apesar de 3 vezes campeão da NBA e 4 vezes MVP, a escola é, para LeBron, sua maior conquista profissional. 


Guiando o séquito 

LeBron James tem quase 70 milhões de seguidores no Instagram e 47 milhões no Twitter. Segundo levantamento da ESPN em 2019, LeBron é o segundo atleta mais influente do planeta, atrás apenas de Cristiano Ronaldo. De fato, seus ganhos com publicidade são até superiores aos 153 milhões de dólares por quatro anos no Los Angeles Lakers. As pessoas querem usar o que LeBron usa, fazer o que LeBron faz, ser como LeBron é. Assim, entra outra parte importante do legado do rei: o uso de sua influência para o debate social. 

Em 2012, James e seus companheiros do Heat protestaram por justiça para Trayvon Martin, um garoto afro-americano de 17 anos assassinado por um segurança no prédio em que estava hospedado. Na ocasião, LeBron afirmou: tendo meus filhos, meus garotos, pensar que um deles pudesse sair de casa e não voltar… A partir desse ponto, eu sabia que minha voz e minha plataforma tinham que ser usadas para algo além do esporte. 

Por justiça e igualdade 

Em 2014, Eric Garner, também negro, foi estrangulado em plena luz do dia por um policial branco em Nova York. Garner era suspeito de vender cigarros sem permissão, mas não resistiu à prisão (apesar de pedir que não o tocassem), nem foi agressivo. Mesmo assim, o policial Daniel Pantaleo deu uma chave de pescoço em Garner e não o soltou, mesmo que o homem repetisse 11 vezes que não conseguia respirar. A morte de Eric causou indignação e protestos em todo o país. LeBron e vários outros jogadores da NBA se uniram à causa, usando camisas com a frase “Eu não consigo respirar”

Rich Kane/Icon Sportswire/Corbis/Icon Sportswire via Getty Images 

Dono de um dos signature shoes mais amados pelos sneakerheads, LeBron aproveitou para levar o protesto à estampa de seu tênis LeBron 15. De um lado, preto, do outro, branco, e a palavra “equality” (igualdade) no calcanhar. “Não importa a cor da pele, não importa a raça ou quem você é. Nós precisamos entender que devemos ter direitos iguais”, disse o rei na estréia do tênis. Todos os lucros da edição Equality 15 foram doados ao Museu Smithsonian de História e Cultura Afro-americana; posteriormente, mais de 800 tênis da edição Equality 16 foram doados para estudantes da I Promise School. 

A luta contra o racismo é uma constante no discurso de LeBron já que ele mesmo foi vítima de racismo: em 2017 o portão de sua casa foi pichado com ofensas racistas. O jogador, democrata, é às vezes criticado por sua oposição ao presidente Donald Trump, mas isso o não o faz pisar no freio. LeBron já foi ridicularizado publicamente pelo próprio presidente, e uma jornalista disse que ele deveria “calar a boca e driblar”. James, no entanto, tem outra opinião: eu significo muito para os jovens. Seria como pedir para Jackie Robinson e Jesse Owens se calarem. Não posso fazer isso, tem muita gente se espelhando em mim. 


Movimento Negro e a importância do voto 

Similarmente à morte de Eric Garner, George Floyd foi um homem negro assassinado por um policial branco. Os policiais abordaram Floyd alegando que ele havia usado uma nota falsa de 20 dólares. Assim como Garner, Floyd não resistiu, pediu desculpas, chorou, implorou para que não atirassem nele; assim como Garner, Floyd repetiu várias vezes que não conseguia respirar, enquanto o policial esmagava o pescoço de Floyd contra o asfalto por 8 minutos. A morte de George Floyd gerou protestos que duram até hoje em todas as esferas. 

Breonna Taylor, uma profissional da saúde, foi assassinada dentro de sua própria casa pouco tempo após a morte de Floyd, durante uma busca policial por drogas. O namorado de Taylor sobreviveu, mas ela não resistiu aos 8 tiros recebidos. Nenhuma droga foi encontrada na casa dela. LeBron, novamente, não se calou, assim como Atletas da NBA e WNBA, que usam camisas pedindo por justiça, repassam abaixo-assinados e participam ativamente dos protestos. Na legenda de seu último post no Instagram, LeBron escreveu: Qual o propósito da sua vida? Criar mudança, motivar, e inspirar outros são alguns dos meus. Eu espero poder continuar orgulhando vocês.” Seguido das hashtags “Vidas negras importam” e “Justiça por Breonna Taylor”. 

Por fim, LeBron acredita no voto popular como o melhor meio para conseguir as mudanças necessárias. Atletas e celebridades negros unidos com o intuito de combater o racismo sistêmico e supressão ao voto através da educação da comunidade; esta é a missão do “Mais que um Voto“. LeBron é, certamente, o rosto mais reconhecido entre os participantes, mas outros atletas da NBA e WNBA também fazem parte. A organização doou 100 mil dólares para cobrir taxas e multas de ex-presidiários que não podiam votar. 


Sucessor e precursor 

A explosão de movimentos após a morte de George Floyd relembra a ocorrida na década de 1960 após a prisão de Rosa Parks (você pode ler sobre aqui). Naqueles anos, estrelas da NBA se levantaram e ficaram marcados como símbolos de uma geração; e nessas estrelas, LeBron se espelhou. “Eu me inspiro em Muhammad Ali, Bill Russell, Kareem Abdul-Jabbar, Oscar Robertson – homens que se levantaram numa época tão pior que a de hoje. Esperançosamente, um dia as pessoas me reconhecerão não só pela maneira como abordei o basquete, mas também como abordei a vida sendo um homem afro-americano.” 

Certamente, LeBron James estará no Hall da Fama e eternamente nas conversas sobre o maior de todos os tempos. Mas na memória de cada fã de basquete, é importante que os feitos do rei fora de quadra seja lembrado. James mudou o jogo, mudou a relação contratual entre time e atleta, mudou estatísticas e recordes, mas, mais que isso, mudou a sociedade. Talvez o impacto do maior atleta da NBA na sociedade só seja verdadeiramente mensurável após sua aposentadoria (que, infelizmente, está cada vez mais perto), mas, por agora, posso afirmar com tranquilidade: Sim, LeBron, você será lembrado com orgulho. 


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