Vai ter show ou jogo? Entenda os direitos de uso do Allianz Parque pelo Palmeiras

Por Fernanda Della Monica

Em diversos episódios nos últimos anos, vimos o Palmeiras perder o mando de campo em diversas partidas devido a realização de shows nacionais e internacionais em seu estádio, o Allianz Parque.

Inaugurado em novembro de 2014, o estádio veio para substituir o antigo Parque Antártica e atualmente é considerado como um dos mais modernos do país, contando com uma excelente infraestrutura (capacidade de 45 mil pessoas) e fácil acesso via transporte público (próximo ao terminal Barra Funda, em São Paulo).

Entretanto, como é possível um time de futebol do tamanho do Palmeiras ser frequentemente obrigado a ceder seu espaço para shows?

O Palmeiras possui muitas questões na justiça envolvendo seus direitos de nome e direitos de superfície.

A relação entre Palmeiras e Antártica, que foi parar na Justiça

O famoso “Jardim Suspenso” do antigo Parque Antártica. Foto: Reprodução da Internet

O antigo nome “Parque Antártica” não é por acaso. Desde o início da década de 1900, a Companhia Antártica de Bebidas cedia seu terreno ao público geral para lazer e atividades esportivas, o que fez surgir o “Parque da Antártica Paulista”.

Em abril de 1920, a Sociedade Esportiva Palmeiras finalizava a aquisição de um gigantesco terreno, pertencente à Antártica, para a construção de seu primeiro estádio esportivo.

O contrato que firmou essa compra e venda não foi tão simples. A Companhia Antártica (atual AMBEV/S.A.) exigiu em uma das cláusulas um chamado direito de superfície, ou seja, no local onde se situa o estádio somente poderiam ser comercializadas as bebidas da Antártica, proibindo não só a venda de produtos de outros concorrentes, mas também a comercialização de imagens, propagandas ou patrocínios.

A questão foi parar na Justiça e resolvida apenas no ano de 2018, onde ficou decidido, por unanimidade, que uma cláusula eleita há 100 anos atrás não se fazia mais condizente com o cenário econômico atual, deixando o Palmeiras livre para comercializar bebidas de outras empresas.

Saiba os detalhes do contrato entre Palmeiras e WTorre

O Allianz Parque operando como anfiteatro. Foto: Reprodução/Allianz Parque

Nos últimos anos o Palmeiras se vê novamente diante de uma questão envolvendo seus direitos de superfície e a exploração econômica do seu estádio.

Em linhas gerais, o Palmeiras não é, exatamente, dono e proprietário de todo o estádio. Nesse sentido, ele poderá realizar jogos da equipe no local, entretanto, há uma condição: caso a administradora queira optar por um outro evento (como um show ou festival) o clube não poderá fazer nada a respeito dessa decisão, uma vez que a administradora possui direito de superfície no terreno.

Ou seja, ela poderá explorar toda a superfície do estádio como bem entender e, em troca, o Palmeiras recebe parte dos valores obtidos.

A construção do Allianz Parque surgiu de um contrato com o Grupo WTorre S.A., uma grande empresa do ramo imobiliário, também responsável por outras construções de alto padrão estrutural como o Shopping JK Iguatemi (São Paulo – SP), o Parque do Povo (São Paulo – SP), a loja oficial da Ferrari (São Paulo – SP) e outros centros de distribuições e fábricas por todo o Brasil.

Ficou determinado que a WTorre seria responsável pela administração do local por 30 anos, comprometendo-se com as despesas gerais do local, contratação de empresas especializadas para serviços de gestão, sendo repassado à Sociedade Esportiva Palmeiras os resultados integrais dos valores recebidos nas partidas de futebol ali realizadas.

A WTorre realizou um contrato junto a Real Arenas Empreendimentos Imobiliários, cedendo assim os direitos de superfície, podendo esta construir e explorar economicamente a superfície do terreno, onde se encontra o estádio.

Em sequência, a WTorre foi atrás de viabilizadores e patrocinadores para transformar o antigo Parque Antártica em uma arena multiuso, formando contratos de peso com a Anschutz Entretainment Group (AEG), a maior administradora de arenas no mundo e a Traffic Sports, uma grande empresa de marketing esportivo, responsável por toda a propriedade intelectual do local, gerindo os direitos de nome, marca, imagem, a comercialização do espaço, camarotes e restaurantes no local.

Posteriormente, os direitos de nome foram vendidos para a seguradora Allianz pelo período de 20 anos, surgindo assim o registro do nome “Allianz Park”.

Veja quais jogos importantes foram realocados por conta dos shows

A maior arena multiuso da América Latina em dia de show. Foto: Reprodução/Allianz Parque

A WTorre possui um contrato minucioso com o Palmeiras, que já causaram alguns abalos entre a administradora e o clube por conta dos camarotes.

A quantidade de público que irá ocupar o estádio (como já mencionado, poderá ser de até 45 mil pessoas, mas a administradora tem poderes para influenciar esses números) e, por fim, decidir se haverá shows no lugar dos jogos.

Segundo o portal UOL, entre os anos de 2014 até 2018 o Allianz Parque foi o palco de, ao menos, 87 shows e aproximadamente 20% dessas receitas ficam no caixa do time.

Embora muito lucrativo para o clube, existem alguns pontos negativos que desagradam principalmente a torcida: a perda do mando de campo. Até julho de 2022 o Palmeiras teve de ceder o mando de jogo 20 vezes e em momentos muito importantes para o clube:

  • Campeonato Paulista 2016: jogo no Pacaembu, vitória do Palmeiras por 1 a 0 contra o Corinthians (foi realizado o show da banda Coldplay);
  • Campeonato Paulista 2018: jogo no Pacaembu, vitória do Palmeiras nos pênaltis contra o Santos (foi realizado o show da banda Depeche Mode);  
  • Copa Libertadores 2019: jogo no Pacaembu com vitória do Grêmio por 2 a 1 (foi realizado o show da dupla Sandy & Junior);
  • Campeonato Brasileiro 2019: jogo no Pacaembu contra o Corinthians, 1 a 1 (foi realizado o festival Nova Brasil);

Em 2022 teremos uma bateria inédita de shows da banda Coldplay no Allianz durante seis dias (15, 16, 18, 19, 21 e 22 de outubro).

Como já mencionado, parte da renda dos eventos irá diretamente para o clube, o que aumentará significativamente seu caixa, uma vez que todos os dias do evento estão esgotados, mas, por outro lado será necessário ceder o mando de jogo durante um período prolongado.

A gestão bem elaborada e um contrato muito sofisticado levando em consideração os ideais de aproveitar ao máximo aquilo que o espaço tem a oferecer vem gerando excelentes resultados econômicos, que se refletem dentro de campo.

Nos últimos dois anos, o Palmeiras foi o time brasileiro que mais venceu campeonatos nacionais e competições intercontinentais, levando a disputa do Mundial de Clubes por duas vezes consecutivas.

A administração financeira e o repasse de altos valores ao clube possibilitaram o financiamento de um elenco e comissão técnica extremamente preparados e com um retorno relativamente rápido (7 anos desde quando a construção do estádio foi finalizada), deixando de lado diversos estigmas sobre estádios tradicionais, que comportam apenas jogos de futebol.


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