Todo Duro vs. Holyfield: A maior rivalidade do boxe nacional

Extremos opostos, Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield protagonizaram duelos emblemáticos dentro e fora dos ringues nordestinos

“Um homem inteligente tira mais proveito dos seus inimigos do que um tolo dos seus amigos.”

Esta frase está em “Rush: No Limite da Emoção”, filme que narra a história dos pilotos e arquirrivais Niki Lauda e James Hunt na temporada de 1976 da Fórmula 1. Iniciei a matéria com esta frase porque ela transmite perfeitamente a relação entre os pugilistas Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield.

Seja na arte ou na vida real, a rivalidade se faz presente o tempo todo. No cinema, a figura do antagonista é essencial para a construção de um herói. Sem um Apolo Creed não existiria um Rocky Balboa, pois sem um Muhammad Ali não haveria um Chuck Wepner. Em um mundo tão competitivo, as rivalidades existem para que pessoas provem o seu potencial dentro do sistema em que vivemos.

Podemos discutir por dias a respeito desse aspecto de vida ser saudável ou não — e acredito que este seja um debate interessantíssimo —, mas não podemos negar que a realidade atual é essa. Dentro do esporte a competitividade e a rivalidade são aspectos essenciais de sua relevância.

Sendo assim, atletas e equipes esportivas diariamente se preparam não apenas para vencerem campeonatos, mas também a superar seus oponentes. Ter um rival se torna uma espécie de combustível para as vitórias, e nenhuma outra rivalidade do boxe brasileiro explica isso tão bem quanto os duelos entre Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield.


Uma década de rivalidade no boxe nordestino

Foto: Reprodução da Internet

Embora vizinhos, os estados de Pernambuco e da Bahia sempre apresentaram culturas bem distintas. Seja nas diferentes tradições carnavalescas, na culinária ou em seus dialetos, ambos são estados importantíssimos para a cultura nordestina e brasileira. Porém, o mundo do boxe proporcionou uma rixa intrigante entre os vizinhos.

Tudo começou em 1993, quando o novato prospecto baiano Reginaldo Holyfield — apelido atribuído em referência ao famoso boxeador Evander Holyfield — enfrentou o pernambucano Luciano Todo Duro. O confronto que ocorreu no Geraldão, em Recife, foi intenso e resultou numa vitória de Todo Duro por pontos.

Entretanto, se engana quem pensa que tudo terminou ali. A luta do campeão brasileiro dos supermédios contra a jovem promessa baiana plantou a semente para uma revanche, em 1997, dessa vez em Salvador. Mais experiente e ostentando uma envergadura maior em relação a Todo Duro, Holyfield se vingou nocauteando o oponente no sétimo round.

Um detalhe, no entanto, chamou atenção. Um espectador atirou uma lata na direção de Todo Duro durante a luta e, após o término do evento, o pernambucano teve que deixar o ginásio sob uma chuva, não d’água, e sim de cadeiras arremessadas pelo público.

Nos anos seguintes, inúmeras lutas entre eles foram realizadas. No ano seguinte, Holyfield novamente lutou em casa e mais uma vez venceu por nocaute, encerrando a luta no quinto assalto. Em 2001, o confronto voltou a Recife e Todo Duro empatou a série com um nocaute impressionante no segundo round.

A capital baiana volta a receber o evento em 2002, mas o resultado não foi nenhum pouco favorável para o anfitrião. A luta válida pelo cinturão brasileiro dos meio-pesados e foi marcada por uma dominância enorme do Todo Duro — diferentemente dos outros embates. Durante sete assaltos, Holyfield foi castigado e derrubado diversas vezes no decorrer da luta.

Embora fosse o atual campeão brasileiro, o lutador baiano foi trucidado pelo rival até mesmo em seu nocaute. O golpe final de Todo Duro foi capaz de derrubar Holyfield do ringue, deixando-o desacordado. Todavia, dois anos mais tarde Holyfield teve sua redenção lutando em Barreiras, Bahia — vitória por pontos empatando a série em 3 a 3.


Rivais sim, inimigos… também!

Foto: Divulgação/Rede Globo

Além do grande equilíbrio nos ringues, a popularidade de Todo Duro e Holyfield também se fez fora dos ginásios. Durante os anos 90 e começo dos anos 2000, a dupla de pugilistas protagonizou inúmeras aparições em programas televisivos. Pesagens, entrevistas e coletivas eram palcos para trocas de ofensas, xingamentos e socos entre os dois lutadores.

Frases como “Você vai morrer na minha mão”, “Cadê meu defunto?” e até mesmo “Eu sou seu pai” ficaram marcadas nas lendárias brigas que tiveram quando promoviam seus combates. As brigas normalmente surgiam pelas provocações de Todo Duro, que era um verdadeiro “trash talker”.

Assim como Muhammad Ali e Conor McGregor, o pernambucano zombava e irritava o seu rival — sem qualquer pavio — a todo momento. O roteiro era sempre o mesmo: Todo Duro provocava Holyfield que, por sua vez, partia para cima de seu eterno inimigo.

Em uma das pesagens, ocorrida no Hotel Catussaba (em Salvador), Todo Duro sorrateiramente deu um tapa no peito de Holyfield. Resultado: Holyfield perdeu o controle e partiu para cima do rival. A briga precisou ser separada e Todo Duro teve que fugir pelos fundos.

Além disso, outra briga marcante foi na Rede Globo em que o jornalista Rembrandt Junior foi derrubado no meio da briga — que começou após Todo Duro caçoar do povo baiano, para a irá de Holyfield. Em outras ocasiões, Todo Duro comprou um caixão e uma coroa de flores para o seu “defunto”.

Quando triunfou na Bahia, Todo Duro se auto intitulou “Rei da Bahia”, e fez uma matéria com de coroa na cabeça degustando cachos de uva. Todas essas provocações sempre tiraram o baiano do sério e proporcionaram momentos sensacionais aos telespectadores.

Perguntado se as situações eram “jogo de cena”, Holyfield respondeu: “Isso aqui não é brincadeira, é pessoal entre eu e ele.”


A Luta do Século

Muito antes de Mike Tyson enfrentar Roy Jones Jr., outro grande evento reunindo veteranos ocorreu no Clube Português, em Recife. Cinco mil pagantes assistiram ao retorno de Todo Duro e Holyfield, com 50 e 49 anos respectivamente. O desempate foi realizado 11 anos após a última luta, em 2015.

Paralelamente, o cineasta baiano Sérgio Machado produziu um documentário “A Luta do Século”, que narra a história dos dois pugilistas nas vésperas do sétimo combate entre eles. “A Luta do Século é uma luta de dois analfabetos contra todas as dificuldades que a vida colocou e que poderiam ter chegado mais longe conta o diretor. A produção venceu o 18º Festival de Cinema do Rio na categoria de Melhor Documentário.

Dentro dos ringues tudo terminou como começou em 1993, vitória de Todo Duro em Recife por pontos. Mas honestamente, esse resultado pouco importou para quem acompanhou a história de ambos. Luciano e Reginaldo enfrentaram todas as dificuldades possíveis, incluindo a falta de reconhecimento.

Ambos foram campeões mundiais supermédios, mas pouco se escuta falar sobre tais feitos. Mesmo assim ambos seguiram lutando. Holyfield foi além sendo heroico ao tentar salvar seus sobrinhos de um incêndio em Massaranduba — causando queimaduras graves em 40% do seu corpo.

Todo Duro e Holyfield não são amigos, não são colegas de bar e nem meros antagonistas. Todo Duro e Holyfield são verdadeiros rivais, mas não pense que isso é algo ruim. Ninguém ajudou tanto Todo Duro como Holyfield, e ninguém ajudou Holyfield como Todo Duro.

Suas glórias podem não estar eternizadas no Hall da Fama do Boxe, mas a rivalidade dos pugilistas nordestinos está no subconsciente de todos que se permitiram conhecer esta história tão brasileira.


Assista ao trailer do documentário “A Luta do Século” de Sérgio Machado

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